coluna Domingando [2021, maio/30]

por Lorena Kalid


Nos anos 90, meus livros escolares debatiam se canção era literatura. Caê e Titãs ilustravam a polêmica, porta de entrada pra algo mais pesado. Virada a página, tacavam Zé de Alencar nos alunos. Enquanto isso, livros adultos conjecturavam os impactos da cultura imagética e de consumo nas artes, a estética do videoclipe assaltando a literatura, linguagens virando sopa etc.


Não tinha MTV onde cresci, nem fastfood ou livrarias, mas todo ano eu ia a Salvador. Clipes, hamburgueres, livros e luzes de Natal compunham meu imaginário de melhor futuro. Já as canções sempre rolaram. A moda era preferir as letras às próprias músicas, como se fossem separáveis; a literatura possível na maioria das casas.


@palapacs costuma dizer que a tradição de grandes letristas elevou demais o sarrafo da composição de canções no país, gerando uma exigência tola de as letras serem trabalhadas, “literárias”, para serem consideradas boas. A literatura se revestiu dessa triste capa de coisa sob ameaça que só se acessa por intermédio de algo menos glamuroso. Estranhamente seus patronos consomem livros como bigmacs, a sopa de letrinhas vira tiktok.


A despeito do tumulto, a mágica sempre acontece. Descobri Nei Lisboa quando já morava em Brasília. Nas horas de busu, ouvindo seus rocks-balada, costurei memórias grapiúnas e soteropolitanas aos takes de cerrado por trás da janela. Do contraste dessas paisagens fugidias criei um lar, feito filme que já nasce cheio de marcas, com o passado agarrado a tudo.


Se tem literatura na canção, a de Nei não se ocupa em trilhar os mesmos roteiros lógicos. Assim são para mim as boas fruições, seja na poesia (com ou sem música) seja na música (com ou sem poesia). Quando ele se internou por covid este ano, eu também acusava o golpe após um ano de rígido lockdown. No banho, a água pelando sobre os ombros tensos, eu colocava o “Amém” pra tocar e torcia por sua melhora.


Sábado passado Nei voltou às lives, eu celebrei com vinho e lágrima, tive vontade de espalhar ao mundo aquela alegria poética que era também tristeza de Brasil, recomendar como nos livros didáticos: ouçam Nei, ouçam. Ali tem poesia, música, política, humor, loucura, ouçam!

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