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Pindorama On The Road - vol 1

Esta é uma coluna escrita por Fernando Delucena, um músico viandante sempre disposto a absorver novos olhares e diferentes perspectivas culturais. Os textos fazem parte da categoria ÓRBITA, publicada no blog da Editora Taipa, que comporta escritores e artistas colaboradores. Esqueçam os cintos. Aproveitem a viagem!


"Pindorama On The Road, o que os outros pensam do Brasil por aí,

uma coluna esporadicamente semanal"



O Canto da Cidade

por Fernando Delucena


Escutar batuques pela rua é uma das memórias mais eloquentes e afetuosas que guardo de Salvador.


Ainda quando muito pequeno e estudava na antiga escola Teresa de Lisieux, eu me lembro de um menino que, todos os dias na saída da aula, parava na barraquinha de ferro que vendia lanche e ficava batucando um ritmo quase hipnótico. Mais tarde eu aprenderia se tratar do samba reggae.


Naquele momento eu ainda não podia compreender as mais variadas paisagens sonoras que me chegavam pelos cantos da cidade, mas já me detinha completamente fascinado, contemplando aquele som de mãos ligeiras. E então, quando chegava em casa, ia tentar imitar aquela mesma agilidade, fosse nas almofadas ou onde mais ressoasse como um tambor. Era difícil, mas até que um dia saiu igual.


Sem perceber, acho que acabei entendendo por osmose aquela clave rítmica, pois se não fosse pela percussão arrebatadora na saída da aula, seria no buzu, com alguma figura intrépida que surge cantando e batucando no assento de plástico, durante toda a viagem, como se fosse carnaval.


Dessa forma contemplativa, parecia que a vida se encantava para mim, em cada canto da cidade, sem que eu me desse conta, enfeitiçada por esse jeito sedutor que a Bahia tem — “um jeito”, como dizia Caymmi, uma magia aprendida sem fazer esforço, somente por correr meus dias nas praças de Salvador, guiado gentilmente pelos tambores e pelo canto entoado, de santo ou de repente, por alguém na Avenida Sete.


**


Anos mais tarde, esse ensinamento negro das ruas de Salvador se decifraria para mim como uma brisa chegada de outros tempos ancestrais. Já longe de casa, enquanto caminhava à beira-mar, pelo bairro malaguenho de El Palo, entre Mediterrâneo e montanha, ao sul da Espanha, deparei-me com um tema flamenco, de um cantaor que caminhava solenemente enquanto cantava, tocando la guitarra para os turistas embevecidos e seus drinks coloridos nos restaurantes.


Ou ainda quando no calor de Sevilla, despretensiosamente atravessando uma praça qualquer, escutei novamente el cante vindo de algum lugar distinto, se arrastando misteriosamente por um dorso de rua que você não sabe onde, não faz ideia, mas consegue sentir a vibração, tal a força desse canto.


Pois eu sentia por dentro uma força incomum emanada daquela Andalucia desconhecida, uma magia difícil de expressar, mas que a qualquer momento deixa entrever frestas de sua ancestralidade profunda, seja num badalado point turístico, ou numa inesperada melodia del cante que irrompe no meio de uma conversa entre amigos, despretensiosa e agora sobremaneira enfeitada, numa simples volta pra casa.


Ali, então, estava eu novamente redivivo naquele menino hipnotizado pelo batuque na barraquinha de ferro, absorvendo o mistério vindo de longe, a fantasia pungente como que espelhada numa canção poderosa do bom e velho Chiclete com Banana, repetindo a mesma pergunta pra multidão: “Que força é essa? E galope vem, galope vai...”, o que seria respondido anacronicamente por Federico Garcia Lorca: “É el duende, o espírito oculto de uma dolorida Espanha”. A magia da vida.


Assim, naqueles momentos, reverenciando os espíritos andaluzes, subitamente os tambores negros da Bahia me faziam entender, como se uma voz silenciosa tivesse me orientado ao longo de toda a vida: “Meu filho, escute a música das ruas”.


Das ruas, sem dúvida, são o eco e a força ancestral de um povo.

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