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Pindorama On The Road - vol.3

Esta é uma coluna escrita por Fernando Delucena, um músico viandante sempre disposto a absorver novos olhares e diferentes perspectivas culturais. Os textos fazem parte da categoria ÓRBITA, publicada no blog da Editora Taipa, que comporta escritores e artistas colaboradores. Esqueçam os cintos. Aproveitem a viagem!

"Pindorama On The Road, o que os outros pensam do Brasil por aí,

uma coluna esporadicamente semanal"


Meu Baianês É Barril

por Fernando Delucena


Outro dia fiz uma chamada com um amigo de Salvador que me disse: É impressão minha ou o seu baianês ficou mais acentuado?

Respondo que é bem provável, pois desde que sai da Bahia, seja para São Paulo, Rio, Roma ou Andalucia, meu cérebro parece que ativa o modo de proteção ao sotaque, que é bem fácil de ir pegando a melodia do outro e ir entrando numa outra dança.

Uma vez fui pedir informação em Roma, perguntei em italiano, e o rapaz respondeu em português -- era brasileiro e eu não sabia: Veja, você vai descer essa rua ... mas você é de Salvador né? -- Não é nem que minha pronúncia italiana não seja boa, mas por dentro de tudo ele flagrou minhas raízes.

Língua é adaptação, sotaque é pertencimento.

Tenho arrepios quando encontro brasileiros que vivem há alguns anos no exterior e esquecem as palavras do português, ou misturam expressões estrangeiras, palavras, uma bagunça toda. De fato a formação cultural do mundo é mesmo essa bagunça amalgamada de costumes diferentes, mas meu arrepio não se dá por julgar os amigos brasileiros, senão por mim mesmo, por amor a minha língua materna; a língua que meus pais me ensinaram; tanta coisa bonita... que aprendi a dizer quem eu era, o que queria, onde ia; a língua para a qual eu traduzia as primeiras canções dos Beatles -- escutei só para que pudesse entender -- e depois escrevi eu mesmo minhas próprias canções; a língua que levei uns dois meses tentando achar as palavras certas, conectá-las para que fizessem sentido -- o que é ainda mais difícil --, para enfim conseguir dar meu primeiro beijo na adolescência; a mesma língua que gosto de vê-la roçar na de Caetano e Gil, de Geraldo Vandré, de Maria Stella e de Gal Gosta: Inscrevo assim minhas palavras na voz dessa mulher sagrada.

Nem sou muito fã do imenso repertório de Gal Costa, mas quando escuto a presença de sua voz, seja lá o que esteja dizendo, eu sinto como uma saudade de casa, como se deitasse a cabeça no colo de minha mãe.

Tenho pavor de chegar em casa e não encontrar alguma palavra do mesmo jeito que deixei quando saí, nessa língua que gosto de chamar de minha. A língua que eu gosto de escrever, que eu penso; a língua que é como um rio que conta toda a minha ancestralidade... que posso contar a mentira mais cabeluda que for, em todas os idiomas que eu conseguir, mas que vai me pegar numa cantada que não tem como esconder; a língua que vem de longe; a língua que lambe e estala; a que enrola, devagarinho; a que fala do mesmo jeito que a gente anda, manso, arrastando a chinela no chão.

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