Pindorama On The Road - vol.4

Esta é uma coluna escrita por Fernando Delucena, um músico viandante sempre disposto a absorver novos olhares e diferentes perspectivas culturais. Os textos fazem parte da categoria ÓRBITA, publicada no blog da Editora Taipa, que comporta escritores e artistas colaboradores. Esqueçam os cintos. Aproveitem a viagem!

imagem do instagram.com/j_failer?utm_medium=copy_link por Johanna Failer [@j_failer]


"Pindorama On The Road, o que os outros pensam do Brasil por aí,

uma coluna esporadicamente semanal"


Nuvens sonoras

por Fernando Delucena

Peças musicais, canto e canções são como portais encantados. Quando entoados têm o poder de fazer flutuar tudo e levar tanto quem entoa como quem escuta a um outro lugar, paisagens e visões que antes não estavam ali. Podem trazer bons ou maus sentimentos, paz, agitação, angústia, depende dessa misteriosa alquimia de vibrações de troca entre quem propõe o som e aquele que recebe. Eu quando era menino, um pouco mais crescido do tempo que me fascinava pelas bandinhas de sopros pelas ruas, gostava de escutar canções e me imaginava cantando e tocando estes temas, pegando emprestado aquela mesma vibração captada pelo registro fonográfico, e então viajava para outro lugar. Assim começava a grande ciranda imaginativa de nunca saber qual seria esse lugar onde eu estaria cantando as canções que eu mais gostava quando criança. Podia ser Twist and Shout pelo pátio da escola, como se fosse no filme Curtindo a Vida Adoidado, ou ainda La Bamba num festival na praia onde eu tocaria com minha banda famosa e tão aguardada por um grande publico. Mas não necessariamente tinha a ver com imaginar-se famoso, mas sim acolhido, longe do menino tímido e excluído que fui, para me converter num vibrante cantor, brincando de igual para igual com todos nesse ambiente lúdico que tem de ser verdadeiramente a experiência artística. Ainda um pouco mais tarde, depois de viajar curioso pelos timbres de muitos instrumentos, das guitarras elétricas, dos violões, trompetes, dos órgãos tubulares, solos e orquestras, então passei a adicionar uma outra brincadeira no jogo de reorganizar sons, para além dos cenários. Imaginava como seria minha voz com a interpretação que gostaria de saber fazer, e qual instrumental seria mais adequado naquela canção. Ou ainda fazia trocas -- como seria a voz de Caetano Veloso na banda do Chiclete com Banana? Ou o violão de Toquinho junto com as guitarras de Edgar Scandurra? As guitarras de Scandurra com os tambores da Timbalada? Ou o timbre das peças para cravo de Bach tocando um baião de Luiz Gonzaga. Todo esse exercício de imaginação me fazia viajar por segundos, as vezes horas, enquanto escutava os registros fonográficos, com o fone de ouvido no luxo de minhas horas de ócio, que depois começavam a se converter na inquietação de realizar essas imagens, tornar-me músico, se é que o simples fato de ouvir e imaginar já não nos credencia como um fazedor de música, que começa ai mesmo nessas nuvens de fantasia. Então, se alguém me perguntar hoje por algum exercício básico de composição, ou de canto, eu prontamente penso nisso: escutar, escutar e deixar-se ir criando cenários, idealizações, misturando os timbres na cabeça. Atividade essencial que faço até hoje, mesmo depois de tantos anos e aventuras musicais quando escuto um som qualquer, ou penso em me aventurar por uma nova composição. Ou ainda nos primeiros instantes quando abro os olhos para o dia e começo a pensar no que fazer. Então permito que venham todas as imagens possíveis -- e até impossíveis -- para trazer aquela mesma inquietação da mistura de sons, que no final, podemos chamar muito mais de um exercício de liberdade do que necessariamente algo artístico, creio eu, sobre música e composição. Se é que não é tudo a mesma coisa.


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