• Taipa

O Tururu

[trecho retirado do conto O HORLA de Guy de Maupassant]

por P.J. de Afonsinho


se ligue na locução!


O governo do homem enfim acabou, e ele chegou.


Ele que sempre foi temido pela gente, desde o ser mais primitivo sobre a Terra. Ele, que padres e bispos zelosos tanto exorcizaram, que feiticeiras evocaram em noites escuras, sem mesmo tê-lo visto aparecer, o sentido, ele, a quem toda aquela imaginação dos senhores, donos provisórios do mundo, emprestou a maior das ameaças, em forma graciosa ou de monstro: fantasma, demônio, espírito, gnomo, fada, gênio, mago incompreendido e demais misticismos tão familiares. Eis que, depois dos conceitos imprecisos baseados no medo original, homens mais sensíveis agora anteviram-no claramente. Um médico charlatão também o pressentiu, e, há pouco tempo, parapsicólogos descobriram com precisão a natureza de sua força, antes que ele sequer a pusesse à prova. Assim passaram a se divertir com essa nova arma controversa do Mestre Divino, em código, o domínio de uma vontade misteriosa sobre a frágil alma humana que, a este poder, se tornou escrava. Chamaram-no simplesmente de magnetismo, ilusionismo, sugestão... sei lá! Pra não chamar de coisa ruim, versinho. São crianças imprudentes brincando com essa força terrível, criatura malcriada balançando na rede! Ai de nós! Ai dos homens! Ele chegou, o magnetismo, o... o... como se chama? O ilusionismo, o... o... a sugestão. Aos gritos, comunicando seu nome a todo pulmão, encharcado de fogo e sangue, mas ninguém consegue escutá-lo. Não sei... o... o... sim... sim.. aquilo que não tem símbolo, mas tem. O... o... o sem nome, diabólico, desprovido de ideia, mas também tem, possui, contra-ataca, balançando na rede, ele continua gritando alto, agora estou ouvindo. Ou não consigo mais... som.. som... som... e ele repete... o Tururu... ou, sem sentido, apenas o Tururu. Aquele que vai lhe subtrair a razão. Ah, ele chegou! Ah, o abutre devorou a pomba, o lobo devorou o cordeiro, o leão devorou o búfalo com seus chifres pontiagudos e tudo mais. O homem matou o leão com a flecha, com a espada, com o porrete, com a pólvora, com a palavra. Mas o Tururu fará do homem o que fizemos do cavalo e do boi: objeto, escravo e alimento, só porque é sua vontade máxima. Cão! Ai de nós!




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